These are the seasons of emotion
O grande capítulo da solidão.

Ela veio da terra desolada. Mãe nada gentil da areia seca. Aço forjado em baixas temperaturas com candura de ventos glaciais.

Seu rosto é um diário íntimo que faz questão de mudar todos os dias. Sempre senta de costas para o motorista porque não quer ver para onde está indo. Costuma ficar no balanço do parque vazio todos os dias enquanto almoça. Volta para a fábrica e aperta os parafusos até as seis. Acende a sua vela à noite e fica esperando que a luz preencha a casa toda. Chora. Sonha em ter mãos maiores para esconder todo o seu rosto. As horas caem como dominós no seu campo de sonhos ceifados. Acordar é o pior dos infernos.

Ela é um número. Códigos binários e calçada bicolor onde todos pisam. Fio vermelho no encaixe vermelho, fio verde no encaixe verde. Sempre carrega no bolso do avental a carta de sua mãe. Quatro páginas de manchas de lágrimas secas. Pensa em estender página por página e mandar pela esteira. Um pouco de vida. Involuntariamente muda, sistematicamente cega e peripateticamente surda, atravessa o seu quarto escuro de dia.

Assim, dia após dia, ganha o estranho hábito de tocar no nariz.  Tem medo de que depois de perder a identidade também perca o seu rosto. Samota. O sentimento é a linguagem universal.

Voltas, voltas e voltas no tempo ancestral. Da memória recôndita dos relógios biológicos. Para o começo de tudo. Pensamento a partir do sopro, sentimento a partir do choro. O corpo marcado pela miséria do nascimento, seguro pelas pernas na posição de ampulheta. Contagem regressiva.

Não tente encontrar semelhança divina no outro que padece do mesmo mal. Todos são fragmentos do espelho partido. Dez, nove, oito, sete, seis, cinco. Horas para frente, vidas para trás. Os dias são uma esteira de repetição consentida. Uma morte sem vida. As palavras ecoam sem parar no corpo vazio. Todos moram em sua torre de Babel particular. A única flor que nasce no coração dos homens provém do cacto, o deserto é a única edificação da paisagem humana.

Todos têm a feição de suas sombras.

Os homens evoluem olhando para o chão. Todas as noites, rios e rios de lágrimas escorrem secretamente. Quatro, três, dois, um. Dormir para esquecer e simular o conforto da morte. Grito de horror no sono profundo. A alma confinada na sua estatura mediana de vida. Triste espetáculo de monólogo sem público, ninguém ouve, ninguém fala, ninguém sente. Diminuir a luz em volta da cama, apagar o último cigarro do maço e sofrer por antecipação os primeiros raios de sol. Desenha no teto mentalmente alguém que nunca vai conhecer enquanto os seus olhos se fecham lentamente. Zero. Cai o pano.

Assim, tudo recomeça quando ela senta de costas para o motorista e a solidão sempre a viajar no assento ao lado.

“Grande” na intensidade do sentimento e não no tamanho do capítulo, eu sei. […]

-GO